Algumas batalhas devem ser sobejamente evitadas, sobretudo, aquelas que ferem os egos, acirram os ânimos e afligem sobremaneira o espírito de seus contendores. Dessas primícias, têm-se notado ultimamente uma preocupação excessiva de determinadas pessoas e segmentos com os ritos praticados pela Igreja Católica, com o seu cerimonial na Santa Missa e com os paramentos usados pelos seus sacerdotes nas celebrações, paramentos esses que encantam aos olhos, como se assim se satisfizesse a efêmera vaidade dos sacerdotes em detrimento dos preceitos preconizados pelo Senhor na condução de uma vida verdadeiramente regrada.
Essa preocupação é cabível na medida em que os rituais de qualquer religião privilegiem essa mesma religião e seus celebrantes, e não, como é de se esperar, a Palavra do Senhor. Nos últimos dias, têm se observado embates contraproducentes e infrutíferos acerca da correta denominação das igrejas de ocasião, se as mesmas designam-se ‘seitas’ ou se deve intimá-las a algo mais elevado, evitando-se, desse modo, os litígios e as mumunhas.
Toda essa celeuma extemporânea privilegia, como sempre, a frivolidade das coisas e a vaidade humana. O Senhor não se preocupa com modismos ou teatralidades, muito menos com protocolos ou fórmulas vãs, como assim nos ensina São Paulo em 1Cor 12, 5-6: “Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor. Há diferentes atividades, mas um mesmo Deus que realiza todas as coisas em todos.”
Afirma-se que os fiéis católicos têm se bandeado aos neopentecostais em busca de “novidades” por formas mais efusivas de louvor, e essa busca tem alimentado críticas desconexas e comezinhas aos ritos litúrgicos praticados pelos católicos. Em se tratando dos paramentos, tais julgamentos tendem à cobiça e a emulação. Responder a essas críticas é alimentar celeumas, contudo, convém observar que as seitas ou igrejas originadas após o cisma católico, pela divina graça do livre-arbítrio, baniram os seculares ritos católicos em favor de fórmulas e louvores de nível muitas vezes inferior e de gosto duvidoso. Pululam nesses cunhais uma profusão de “tendas disso”, “fogueiras daquilo”, “anéis que tais” e outros expedientes mais que privilegiam unicamente o êxtase momentâneo de seus prosélitos do que propriamente o amor e o temor de Deus.
Seria deselegante incitar contendas afirmando que os sectários dessas seitas entrevistem anjos celestes sobre essas tendas e essas fogueiras, mas, ao mesmo tempo será assaz ignóbil alguém ridicularizar as imagens sacras católicas afirmando que elas encerram o espírito daqueles as quais são dedicadas. Seria o mesmo que afirmar, como em certas culturas indígenas, que as fotografias de entes queridos são o depositário eterno de suas almas e, danificando-as, conspurcar-se-iam as suas memórias.
Os homens, desde os primórdios, reconhecem o imutável e têm plena ciência da necessidade do amor de Deus, da humildade e do temor de Deus, sendo esses três pilares a admirável essência da filosofia de São Bento de Núrcia, muito bem expressos em sua conspícua e diáfana regra. As culturas, obviamente, diferem entre si nos seus conceitos e, muitas das vezes, numa mesma cultura sucedem embates ferrenhos, concernentes aos mais variados assuntos, porém, desde que mantidos o devido respeito ao livre arbítrio, tudo concorre para a Glória maior do Altíssimo.
O desdém aos ritos e preceitos praticados pelos católicos carece de observância fiel à Palavra do Senhor, concisa em Eclesiástico 7, 31-32: “Teme o Senhor com toda a tua alma, e venera os seus sacerdotes. Ama com todas as tuas forças aquele que te criou, e não desampares os seus ministros”. E o Senhor nos delega aos cuidados a Sua verdadeira Igreja em Mateus 16, 18: “E eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.”
Com efeito, “Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor.” Igualmente, há diversidade de ritos e oblações, e o fervor nesse mister é que determina a comunhão real com Deus. Se levarmos em conta que o Senhor se abstém firmemente de carteiras e bolsos cheios em favor do respeito e amor às suas veredas, os embates acerca dos ritos será apenas retórica no aliciamento de espíritos mais fracos e dados aos pendores cênicos nas celebrações, em detrimento de um maior e igualmente válido fervor na oração.