“Fala-se muito nas discussões e em todas elas há muita vaidade”. Esse preceito contido em Eclesiastes 6.11 reflete a excrescência vaidade humana em todos os aspectos que regem a nossa vida, a moral e os bons costumes. Nos últimos tempos, desde a visita de Sua Santidade à nação brasileira, temos tido a opinião de diversas pessoas providas do condão maravilhoso da informação, alguns até, formadores loquazes de opinião acerca de temas demasiado prolixos, porém, caros e necessários ao régio conduto da condição humana.
Têm-se tratado da questão do aborto das formas as mais radicais e esdrúxulas possíveis, com paroxismos os mais diversos, como se estivéssemos, de fato, na idade média, e dos embates entre Estado e Igreja dependessem as cabeças as mais proeminentes. É fato que o governo tem agido nessa questão espinhosa com a melhor das boas intenções, uma vez que é crítica a situação de um número incalculável de mulheres em condições sofríveis de amparo social, não somente nas questões concernentes ao aborto como também nas várias etapas sucessivas do pré-natal, quando as mesmas decidem humana, cristã e racionalmente a prosseguirem a gravidez. Também é fato inquestionável a posição da Igreja sobre o assunto, ou seja, a defesa do valor da vida, da sua concepção ao fim natural.
Para aqueles que identificam erroneamente um paradoxo da Santa Sé na defesa dos valores da vida, na medida em que esta defende em toda a máxima os direitos do feto em detrimento aos riscos à vida daquela que em si o encerra, frente à marginalização dos processos contraceptivos comumente observados, cabe aqui as razões as quais os embates promovidos contra a Igreja carecem de profundidade de reflexão, uma vez que suscitam erros contumazes de quem os pauta.
A questão intrínseca não trata unicamente do aborto em si, da defesa da vida contida no embrião, no feto ou à própria mãe, mas, sim, do valor real como a vida se nos apresenta. Mulheres têm sido vilipendiadas e vítimas de toda a sorte de abusos e exploração sexual desde a mais tenra idade, seja de forma direta às vias de fato, inclusive, por pessoas até então insuspeitas ao seu convívio cotidiano, seja de forma indireta, em que são expostas como objeto de barganha e consumo em propagandas e peças de ficção de gosto duvidoso, onde a elegia à concupiscência são os maiores e mais tristes atrativos.
Quando adultas e com um mínimo de valores familiares e cristãos incutidos e introjetados desde o berço, tais mulheres sabem se defender de maneira própria e peculiar dessa terrível forma de contágio que ora infeta nossa sociedade. A gravidade, porém, advém quando tais modismos atingem o alvo a que muitas vezes se destina, qual seja, a juventude. Meninas debutadas na adolescência, mal saídas da puberdade, são invariavelmente seduzidas por esses apelos perniciosos e de baixíssimo nível, onde são levadas ao extremo a arte da sedução e domínio do sexo oposto como sinal inequívoco de sua pretensa capacidade de auto afirmação. A formosura é coisa vã e a primazia no ensino educacional sobre o desabrochar da sensualidade e da sexualidade faz-se imperativo nesse contexto. Como são ainda basicamente crianças na acepção real da palavra, e como nem sempre têm junto de si o amparo e a estrutura familiar nessa ou noutra área difícil das relações humanas nesse começo difícil de suas vidas, e seduzidas diária e inexoravelmente por esses descasos infelizes de cooptação, acabam se entregando a um hedonismo em que, finda a descoberta precoce e imatura do prazer momentâneo, supuram então as chagas do desgosto, arrependimento e tristeza, onde, aliada à infeliz e irrecuperável perda da virgindade encontra-se a igual perda da auto estima e referência, somada à constatação de que, a reboque a inocência perdida, surge agora uma igualmente insegura, débil, frágil e estranha mulher, numa sociedade não menos perdida, frágil e estranha.
Esse abjeto e vil lugar-comum da condição humana deve ser combatido e abolido veementemente de nossa sociedade. É contra esse tipo de mazela que a Igreja tem digladiado desde os primórdios, com mais afinco nos últimos tempos e com ânimo redobrado nos dias coevos. E a essa luta devem-se assomar todos as demais parcelas da sociedade como um todo, sem pseudomaniqueísmos, ideologias ou demais ismos freqüentemente utilizados por esses contumazes oportunistas de conveniência.
A bandeira da dignidade humana deve ser empenhada desde a percepção individual das responsabilidades a que estão sujeitas as relações carnais fora do casamento, bem como o magnífico porvir desse desabrochar da sexualidade quando frutificado das sementes e frutos de uma vida casta e virtuosa. Estado, instituições e comunidades são regidos e constituídos por pessoas. E pessoas são constituídas invariavelmente pela união carnal entre homem e mulher. E quando essa união se dá no seio da Família, a mais antiga e secular instituição constituída por Deus, e quando a Família segue fielmente os preceitos, os desígnios e as veredas do Senhor, então o passo primordial para o refinamento nas relações está dado.
As coisas velhas, enfim, passam. E eis que tudo se faz novo.